Teresina Gospel » Notícias » Autor de ‘O Mundo de Sofia’ discute a existência de Deus
Aos 11 anos, o norueguês Jostein Gaarder percebeu algo que o deixaria inquieto pelo resto da vida. Um dia, ao acordar, ele se deu conta de que viver – ainda mais no universo em que vivemos – não era “uma coisa normal”. Era “mágico”. Foi essa inquietação que o levou à filosofia, às salas de aula e aos livros. Nos últimos 47 anos, Gaarder vem tentando – primeiro como professor, depois como escritor – transmitir seu espanto às pessoas. Na literatura, onde estreou em 1986, parece ter conseguido. O seu livro mais famoso, O Mundo de Sofia (1991), fez dele um autor traduzido para 42 línguas.
“Há dois tipos de escritores: aqueles que escrevem porque são apaixonados pela linguagem e aqueles que o fazem porque têm mensagens para passar”, diz, em entrevista a VEJA Meus Livros. “Eu estou no segundo grupo.” Em seu novo livro, O Castelo nos Pirineus (Companhia das Letras, 184 páginas, leia aqui um trecho), a mensagem – ou inquietação – que Gaarder procura transmitir é a do embate entre ciência e religião.

No romance, dois ex-namorados se reencontram após 30 anos e relembram o que os separou: visões de mundo completamente diferentes. Após atropelar uma mulher na estrada e reencontrá-la uma semana depois, quando jovens, cada um tem uma posição distinta diante dos fatos. Ele, Steinn, acredita que pode ver a mulher porque ela está viva e passa bem. Ela, Solrunn, acha que eles veem apenas o espírito da mulher morta, desejoso de se comunicar com eles, coisa que o cético Steinn não pode aceitar. Ele é a ciência. Ela, a religião.
Confira parte da entrevista concedida por Gaarder à Revista Veja:
Então, você não acredita em Deus, mas admite que ele pode existir?
Exatamente. Acho que pode existir uma força divina que tenha criado o universo. Por que não? Eu não sei. Mas eu não creio em revelações físicas, como a personagem de O Castelo nos Pirineus. Tem gente que diz que fala com os anjos e até com Deus, que ordena que algumas coisas sejam feitas, eu não acredito nisso. Mas muita gente no mundo acredita em coisas assim. Fala-se muito no fundamentalismo islâmico, mas também há o fundamentalismo cristão, especialmente no norte da América. Por falar em revelação ou aparição, vale dizer que a personagem principal do livro não é ele nem ela. É a mulher atropelada, que usava um cachecol vermelho, peça deixada no local do acidente. Na Alemanha, o livro se chama A Mulher do Cachecol Vermelho.
Desde O Mundo de Sofia, que o projetou internacionalmente, o senhor se tornou um best-seller. Como é viver com isso?
Eu me considero um homem de sorte. Antes de O Mundo de Sofia, eu escrevi O Dia do Coringa, que me projetou em meu país – O Mundo de Sofia o fez em nível internacional. Eu hoje sou lido em 55 línguas, e sou grato a Sofia por isso. Para mim, a escrita é uma maneira de me comunicar, de passar mensagens. Eu acredito que haja dois tipos de escritores: aqueles que escrevem porque são apaixonados pela linguagem – assim como pintores que gostam de mexer com tinta – e aqueles que o fazem porque têm mensagens que querem comunicar.
Que mensagem você tenta passar às pessoas?
Quando eu tinha 11 anos, eu me lembro, acordei um dia com uma revolução na cabeça. Comecei a pensar como era estranho viver dentro do nosso universo. Compartilhei isso com meus pais e professores, e eles não entenderam. Parecia normal para eles, e eu fiquei irritado. Então, prometi a mim mesmo nunca me acostumar com o mundo e nunca deixar que a vida se tornasse um hábito. Esta experiência eu venho mantendo ao longo de toda a minha vida e é ela que eu tento comunicar às pessoas – a magia da existência.
Fonte: Veja
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